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Os Viralata está de volta!

“Viralata que é viralata não morre fácil”, já dizia o meu querido Alex Castro (que está no ar hoje com uma excelente reflexão sobre auto-exposição na internet).

Após alguns meses fora do ar o site de livrOsViralata, outrora um grande ponto de encontro de literatura independente na internet brasileira volta à cena, mas dessa vez, completamente diferente.

Isso porque Os Viralata, apesar do nome no plural e ao contrário do que muita gente pensava, era na verdade mantido pelo esforço de um homem só, Albano Martins Ribeiro (a.k.a. Branco Leone). Que sozinho administrava não só a divulgação de talentos independentes, como também todos os problemas que vinham a reboque. A pausa veio com muito lamento para nós, mas na hora certa pra ele, que aproveitou para recarregar as energias e reformular o projeto.

Esse retorno “repaginado” dOs Viralata (agora não mais um site de divulgação, mas uma editora), num misto de masoquismo e perseverança, vem mostrar que viralata que é bom não morre fácil. E nós, leitores, agradecemos por isso.

Incompletos

Incompletos, de Albano Martins Ribeiro. À venda no site de LivrOs Viralata

Um dos livrOs Viralata à disposição novamente é Incompletos, de autoria do próprio Albano Martins Ribeiro. Livro que ganhei de presente do autor com direito à dedicatória safadinha e que  li em uma tarde, completamente absorvida por aquelas vidas. Ou seria melhor dizer pelos fragmentos daquelas vidas? Sei lá… Sei que li os textos, que falam de relacionamento e sexo, com a impressão que zapeava uma TV que por alguns instantes teve o dom de escanear aleatoriamente algumas mentes e captar lembranças, imagens, safadezas…

Cada texto é apenas um trecho de uma história, o que veio antes ou depois, fica a gosto do freguês, mas o pouco que o autor nos mostra é suficiente para perceber sentimentos, pensamentos de uma explicitude e crueldade (?) quase indecentes. São textos rápidos, de um humor ácido e sexualidade explícita, que a gente começa não sabe como e termina sem saber porque, mas que nesse meio tempo, hummm… Se delicia por espiar e se tornar de certa forma voyeur e cúmplice, tanto do lirismo quanto da crueza de alguns momentos.

Incompletos? O que estão incompletos? Os textos, as histórias, as personagens, suas vidas… Nós?! Vai saber…

Trechos (safados) do livro Incompletos, de Albano Martins Ribeiro

(quarta à noite, fora de hora)

“Ele dirigiu por alguns quarteirões esperando que ela dissesse mais alguma coisa, reparando nos gomos de pele branca que pulavam para fora do jeans rasgado, e quis agarrá-la na cama, segurá-la contra o colchão travando-lhe perna e brações para ver o que ela era capaz de fazer enquanto ele a comesse, mas ela permaneceu em silêncio, o olhar baixo.”

(sexta, no meio da manhã)

“A amiga então contou que se meteu pelada para debaixo das cobertas e se arrumou de costas para Eduardo, com a bunda nele para deixar espaço para o outro que mijava no banheiro, o queixo dele encaixado na sua nuca.”

(sábado à noite, na vila)

“Ele nem viu como foi, mas ela conseguiu pôr seu pau pra fora da calça, ajoelhou-se, abocanhou-o, e enfiava metade na boca e o chupava com força enquanto o chupava para fora da boca, e depois de fazer isso umas quatro ou cinco vezes, jogou a cabeça para trás e berrou com aquela voz estranha deus, como isso é bom!, e ele sentiu medo de estar ali.”

Ah, vale uma menção especial à capa, que à princípio imaginei que fosse uma obra de Carlos Zéfiro, mas não. Trata-se de uma deliciosa ilustração de Eduardo Schalwww.eduardoschaal.com – que vale uma visita com calma.

Sexo Pago

Não é novidade que A Vida Secreta apóia a literatura independente. E isso por que só quem escreve sabe o quanto é bom ser lido. Estou longe de pretender ser uma escritora, apesar de amar escrever. Não é à toa que blogamos. Ainda é um pensamento utópico viver de literatura neste país, mas… Fazer o que, se somos tão idealistas e apaixonados? Um dia também faço esta ousadia. Enquanto isso, escrevo, só escrevo…

Depois da morte d’Os Viralata a coisa ficou meio tristinha no cenário blogosférico literário (existe isso?), mas sobreviveremos. A prova de que nem tudo está perdido são as iniciativas de uns loucos poucos que apesar de saberem das dificuldades ainda ousam botar a boca no mundo, ou melhor, jogar as letrinhas no papel.

Drika Sanches (a Cafeína do Bebendo Fumaça) é uma dessas pessoas,  ”cumadre” do AVS desde os tempos do Me and My Secret Life. Quem acompanha seu blog, sabe exatamente que o bom humor e dinamismo dos seus textos é mais que charme, um estilo.  A moça colocou em seu livro,  Só Acontece Comigo? – Amores e Desamores, as melhores histórias destes 3 anos de blog. São 195 páginas de crônicas curtas sobre relacionamentos, geralmente menos picantes e mais com humor. O texto abaixo faz parte do livro, um breve aperitivo para colocar água na boca de vocês. Vale a pena conferir! Entre também na Comunidade do Livro no Orkut!!!

Sexo Pago

Sexo Pago é parte integrante do livro: Só Acontece Comigo? - Amores e Desamores, de Drika Sanchez. Para comprar, clique na imagem.

E ela me disse que estava cansada da rotina. Assim, numa mesa de bar, em alto e bom som, dizia que não aguentava mais essa vida em que todos davam mais valor às outras do que à ela. Cansou. Disse pra mim que precisava mudar, não sabia ainda como, mas ia pesquisar por aí. Tentou amigos, tentou amores, e nada mudava o sentimento de insatisfação que a invadia de forma intrusa todos os dias. Camila não se aguentou.

Certo dia, entrou em algum bate papo informal na internet quando viu logo nos primeiros minutos um nick deveras interessante. “Sexopor$” era o nome. Em conversa privada logo foi avisada que era uma mulher. Uma mulher que ganhava a vida fazendo sexo em troca de alguns trocados. Talvez este era o fetiche de Camila. Como seria ser desejada como profissional e ainda assim ganhar uns trocados com isso?

Camila não fazia idéia como seria, afinal até hoje só havia tido relacionamentos amorosos sérios e pouco empolgantes. Decidiu aderir o mesmo codinome. Seria a “private dancer, a dancer for money”, somente por um dia. Daria certo isso? O medo do desconhecido invadia sua alma. Como receber alguém em sua casa sem saber quem? Como conversar com alguém que lhe paga por sexo, algo que qualquer mulher por aí está fazendo gratuitamente. Ela sabia disso. Nunca teve muitos pretendentes, imagina se cobrasse?

Em poucos minutos Camila havia recebido 5 chamadas. Muito mais do que recebera há dias. Definitivamente os homens tinham o mesmo fetiche que ela, sexo pago. E assim se fez. Dia seguinte um tal de Carlos, foto bacana, orkut casado, msn trocado, anotava o endereço de Camila para o programa. Não faço anal. Oral e sexo com camisinha. Essa era a exigência dela. Cem reais a hora era o preço. Deixar documento na portaria era o pedido. E assim Camila tentava se precaver do primeiro programa.

Fetiche realizado. Ela pedia que ele lhe mostrasse o dinheiro durante a transa. E isso fez daquela noite de meretriz o melhor sexo da vida dela. Camila pegou gosto. Ela, que nunca tinha sexo com homens sérios anteriormente, hoje tinha quatro programas marcados para a semana. Não era pelo dinheiro. Não mesmo, Camila não precisava disso. Era pelo fetiche. Pelo desejo. Todos repetiam que ela era ótima e absoluta, uma verdadeira profissional na cama, coisa que nenhum ex namorado oneroso fazia. Todos a desejavam.

Camila passou alguns meses nesta vida. Contou para alguns que não era uma profissional, fazia somente pelo fetiche. E pelo sexo, que não tinha antes de cobrar. Gastou todo o seu dinheiro ganho com suas contas e amenidades. Ela não precisava daquilo pra viver, tinha emprego, vida ganha. Ela só precisava se sentir desejada.

Hoje, Camila não faz essa ‘brincadeira’ há mais de 1 ano. E não consegue sexo há seis meses. Os homens não querem come-la de graça. Ela me disse, ainda hoje, que não sabe mais o que fazer para encontrar alguém que a ame de graça.

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O texto acima é parte intergrante do livro Só Acontece Comigo? – Amores e Desamores, de DrikaSanchez, a Cafeína do blog www.bebendo.com.br