Entrevista com Estêvão Romane (autor de Eu Amei Victoria Blue)

O entrevistado de hoje é Estêvão Romane, autor de Eu Amei Victoria Blue, recém lançado pela Geração Editorial, já comentado no A Vida Secreta. Em poucas palavras o livro conta a história de um jovem brasileiro em Nova York que se apaixona por uma mocinha misteriosa e vive um romance de muito sexo e mentiras.

Fiquei curiosa e perguntei se o rapaz topava um 5 contra 1 (nada de pensar safadeza, rs, são apenas 5 perguntas feitas por mim, seus pervertidinhos… rs). O resultado é uma entrevista gostosa, uma oportunidade de conhecer um pouco mais do autor por suas próprias palavras.

Dizem que um autor nunca é, ou não deveria ser, mais interessante que suas personagens, mas como este é autor de um texto autobiográfico… A entrevista ficou longa, mas achei melhor não editar nada, para que vocês se encantem com o moço, assim como eu me encantei.

AVS – Com a personagem Davi, quem ler Eu Amei Victoria Blue conhecerá um pouco do Estevão, ou pelo menos uma época da sua vida, mas… Quem é Estevão Romane? Conte um pouco mais (de onde é, formação profissional, atividade atual, o que achar pertinente contar, tenho por princípio respeitar o quanto as pessoas desejem falar de si) do homem que ousou expor uma experiência pessoal em nome de uma boa história.

Com Manhattan ao fundo, foto de seu arquivo pessoal.

Estêvão Romane – Eu tenho 23 anos, 1,93 de altura, olhos castanho escuros, cabelo preto, prefiro praia do que montanha, não fumo cigarro e meu signo é virgem, quer teclar? Haahahahahahaha

Bem, vamos lá: quem ler o livro conhecerá, sem dúvida, um pouco de mim. E, pelo que pude notar até agora, pela reação de algumas pessoas (que não me conhecem), parece que sou uma pessoa um tanto “surreal”, e não são poucas as que não acreditam no que conto, não acreditam em quem eu sou. Para mim, escrever a verdade, depois de tantas mentiras que ouvi e vivi, foi uma necessidade.

Mas, enfim, acho que não devo insistir muito neste assunto. Eu sei o que vivi, sei quem sou, e entendo que algumas pessoas relutem em acreditar. “Acredite quem quiser…”, dizia o locutor nos contos da cripta. No caso, meu conto da cripta é real, acredite quem quiser… (com vozinha macabra e tudo mais).

Agora, quem é Estêvão Romane: em muitos aspectos, eu não sou mais Davi, principalmente no que diz respeito a aceitar certos comportamentos dentro de um relacionamento, como receber uma ligação de minha namorada, no meio da madruga, de um quarto de hotel em Las Vegas, em que ela conta que as amigas estão trepando na frente dela com uns caras, e que a comeram de tudo quanto é jeito na noite passada, e eu simplesmente respondo: Que delícia!. Vá lá como fetiche, mas, na realidade… Não passaria por isso de novo.

Nasci em São Paulo, capital, num sobradinho, após 10 anos de tentativas frustradas de minha mãe para engravidar. Considero que minha educação paterna veio de três fontes: meu pai, meu padrinho, e um amigo da família muito próximo. Cada um deles é um personagem por si só, e ainda vou escrever um livro contando algumas de suas histórias.

A grosso modo, de meu padrinho adotei o hábito de fumar charutos, hábito que cultivo desde os 13 anos de idade, aprendi também com ele 99% de toda a teoria sobre o ser feminino, e ele foi – e ainda é, um guia para mim neste assunto, desde a mais tenra idade; de meu pai, o lado da música clássica, do jazz, da filosofia, das questões éticas, da política, prosa e poesia – meu velho é uma biblioteca ambulante, uma mente à frente de seu tempo; do amigo de minha família, o lado da cozinha (desde os 4-5 anos de idade, ele me ensinava como fazer churrasco, destapar champanhe, abrir vinho, cozinhar camarões, servir as pessoas com elegância e prazer). Recebi dele boa parte de minha educação etílica; e de todos, o prazer de amar incondicionalmente a vida, a felicidade constante, o humor inabalável, o incomensurável prazer de sempre estar rodeado de bons amigos, o hábito constante de contar histórias.

Nova York em preto e branco, mais uma de seu arquivo pessoal.

Cresci ouvindo histórias, muitas histórias, e que grandes contadores de histórias são eles! Meu livro não tem nenhuma pretensão literária, de se tornar um marco na literatura ou coisa do gênero. Apenas quis contar uma história, como se eu estivesse num bar tomando chopp com cada leitor. Já até disse isso por aí.

Com isso tudo e mais um pouco, minha vida não poderia ter seguido um rumo muito diferente: me formei engenheiro de som aos 15 anos de idade, num curso profissionalizante. Comecei a trabalhar imediatamente, e tive o prazer de gravar bandas de indie rock, trabalhar em trio elétrico na Bahia, produzir música eletrônica… Muita coisa.

Aos 17, fiz um curso de Sommelier, que me abriu a cabeça para o maravilhoso mundo da degustação, dos aromas, dos gostos… Mas nunca trabalhei profissionalmente com isso. Quem sabe um dia…

Quando em Nova York, fiz amigos pintores, designers, fotógrafos (existe até um nu artístico meu perdido por aí), executivos de banco, au pairs, feirantes, pessoas de todos os cantos do mundo, de todos os ramos. Quase todos que se mudam para lá passam por isso, e poucas vivências na vida são tão importantes do que ter contato com essa gama tão diversa de pessoas, culturas, vidas.

Falei demais já, né? Hoje em dia eu estou começando um serviço de terceirização de produção de roupas, bem como alguns outros projetos, incluindo o livro, que para mim é também um business.

AVS – Davi começa o livro demonstrando ser um cara de mente aberta para o sexo, que inclusive se relacionava com uma MILF ao chegar em NY (amei a citação sobre viverem “esfolados” de tanto sexo… rs), trepa com uma quase desconhecida pouco depois, mas… Demonstra certa mágoa/decepção (?) na descoberta da vida secreta da sua então namorada Fernanda/Victoria Blue. Há um quê de machismo neste ressentimento (“mulher minha não é de ninguém”) ou a descoberta da profissão provocou um efeito dominó em outras mentiras?

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Estêvão Romane – MILF! (muitos risos) Baita MILF!

Eu descobri a profissão de minha namorada no final, depois de perceber que ela mentia sobre várias coisas, compulsivamente. Foi só por isso que fui atrás de descobrir com quem realmente eu estava vivendo debaixo do mesmo teto. Afinal, estávamos vivendo debaixo do mesmo teto!

Não me magoei quando descobri que ela era uma garota de programa, mas fiquei puto e muito atordoado quando caiu a ficha que ela havia mentido para mim durante todo o tempo do nosso relacionamento, que mentiu praticamente sobre todos os aspectos de sua vida.

De forma alguma considero que ela me traiu. Sei a diferença entre o profissional, no caso, e a traição. Entre todas as mentiras desbancadas, eu me emociono até hoje ao lembrar que uma das únicas coisas que ela me pediu foi: acredite que eu fui fiel a você, por favor, acredite que eu te amei, eu te amei muito! Nisso você tem que acreditar! E podem me chamar de “bobo de marca maior”, como li por aí, mas nisso eu acredito.

Eu amei muito ela, nunca tive qualquer ressentimento, ódio, sede de vingança ou nada do tipo. Pelo contrário! Tanto que o nome do livro é Eu Amei Victoria Blue.

AVS – Como uma Designer de Moda que escreve sobre sexo nas horas vagas (eu), foi impossível não me sensibilizar com a personagem e imaginar alguns porquês de uma pessoa omitir determinados itens da sua vida, principalmente os que a sociedade ainda tem reservas em aceitar. Aliás, você mesmo comentou que era até compreensível esta omissão. Não fossem as outras mentiras (parece que se tratava de uma mitômana compulsiva) o fato dela ser uma prostituta de luxo seria um detalhe “passável”?

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Estêvão Romane – Se ela tivesse sido franca comigo desde o início, com certeza seriamos amigos até hoje, mas, namorados, não. Não conseguiria amar uma mulher sem ficar completamente louco sabendo que ela trabalha satisfazendo sexualmente homens, mulheres e casais. Sem preconceito pela profissão, de forma alguma, e sem ser machista, mas não conseguiria ter cabeça para aguentar isso.

Porém, como já disse, não cortei relações com ela porque ela escondeu de mim que era uma garota de programa. Cortei relações quando descobri que ela havia mentido sobre sua história de vida, inventado cada detalhe de sua infância, contando intermináveis histórias de pura fantasia. Ou seja, eu amei uma mulher que nunca existiu. E isso, bem, isso não é nada legal.

AVS – Em outra entrevista sua vi que chegou a comentar (quase com admiração?) que essa capacidade dela em administrar seu segredo demonstrava o seu profissionalismo, pelo menos no sentido em que pôde conhecer. Chega a ser contraditório em uma mesma afirmação perceber ressentimento e vaidade… É isso? O livro é uma expressão ressentida (pela mentira) e ao mesmo tempo envaidecida (afinal, quem pagava 2 mil dólares por programa eram os outros, pra você era um presente, um prazer) de uma mesma história?

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Estêvão Romane – Não se trata nem de ressentimento nem de vaidade. Se eu tivesse ressentimento, quisesse apagar isto da minha vida, certamente não teria publicado um livro; seu eu tivesse vaidade, com certeza não teria publicado um livro contando como fui enganado, não teria sido cruel comigo mesmo como fui. Eu poderia ter escrito um livro chamado: “Victoria Blue, aquela puta” e inventado que eu já sabia de tudo, que só estava ali comendo ela porque era de graça, que eu era O cara, bacanão, etc. Mas não, escrevi o que aconteceu, justamente por não ter vaidade nem ressentimento. Aliás, considero os dois sentimentos abomináveis.

Digo de passagem, aliás, que eu fui contra o subtítulo do livro: Minha história de amor com uma garota de programa. Mas tive de aceitar por pressão da editora. A história é muito mais complexa do que quiseram rotular, e acho o subtítulo desrespeitoso comigo e com ela, desrespeitoso com a história. Eu não vivi um amor com uma garota de programa, eu vivi um amor com uma mulher que, desesperadamente, não queria que eu descobrisse esse lado da vida dela para não me perder. Poxa, não tem como eu não me emocionar e a admirar muito pelo esforço que fez.

AVS – Pra finalizar… Mesmo com toda enganação Victoria Blue parece ter sido um presente e tanto, né?! (Foda-se o prepúcio!!! rs…) Afinal quantos garotos de 20 anos conseguem transformar uma decepção dessas em livro? E com direito a tórridas cenas de sexo, hummmm… Vou ficar torcendo que vire um best seller e Hollywood compre os direitos de filmagem, mas antes preciso dizer que o pouco que li deu vontade de quero mais (pois é, essa amostra grátis do livro parece cocaína… rs). E é impossível não comentar que a maneira como você desenvolve o sexo e o erotismo soa extremamente natural e sedutora. O que demonstra, sem dúvida, um talento não só para contar histórias, mas histórias com uma pitada de safadeza. Já tem uma outra história em vista ou vai esperar um reencontro para escrever a parte dois?

Eu amei Victoria Blue

Estêvão Romane – Perder o prepúcio foi uma das melhores coisas que já fiz! Recomendo a todos que ainda têm o dito cujo!

Se eu tenho outra história em vista? Que tal a história de que o que mais quero é simplesmente amar uma mulher maravilhosa, íntegra; viver um amor em que estejamos um ao lado do outro nos momentos de tristeza e felicidade, em que possamos crescer juntos, atingir todas as nossas metas e sonhos, gozar muito (de uma ótima vida! Hehehe)? Afinal, foi pensando nisso que deixei me envolver tanto com Fernanda, até o momento em que ela começou a se revelar…

Mas, se quer saber se vou continuar escrevendo, vou. No entanto, outro livro sobre minha vida pessoal, nunca mais. Abri esta exceção porque a história tinha de ser contada. Como disseram num comentário de um blog de um jornalista que duvida da minha pessoa: mais vale dividir um manjar com os amigos do que comer um prato de quiabo sozinho!

8 opiniões sobre “Entrevista com Estêvão Romane (autor de Eu Amei Victoria Blue)”

    1. Então Andarilho, sempre que leio entrevistas por aí fico com vontade de quero mais, às vezes são tão editadas que perdem até o sentido com respostas descontextualizadas. Sempre acontece, por exemplo, da gente (AVS) gastar um tempaço dando entrevista para a dita cuja se perder em uma frase na edição… Exatamente por este motivo, como este espaço é nosso, eu prefiro disponibilizar as entrevistas na íntegra, pois dessa forma o leitor tem acesso realmente ao que pensa o entrevistado.

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