Dedicatórias

Ontem estive num sebo, não costumo freqüentar sebos, pois tenho uma rinite alérgica terrível, mas queria presentear um amigo com o livro que mais amo na vida “O morro dos ventos uivantes” de Emily Brontë. É claro que eu podia comprar numa livraria ou até pela internet, novinho, cheirosinho, mas quando passei diante do sebo e vi a mesma coleção antiga, igualzinha a que tenho em casa, parei e comecei a garimpar no meio da coleção que conheço tão bem, apesar de não ser exatamente a minha.

A primeira coisa que procurei ao abrir o livro, foi se havia algo escrito, marcado, alguma nota ou dedicatória. Os livros que amo, de tão manuseados, chegam a ter as páginas molinhas. Não sou rata de livraria, mas os livros que gosto, amo e releio à exaustão. Os livros que amo são um pouco parte de mim.

“…mas B. e a vida secreta, menina?!”

O fato de o livro estar intacto, dando a impressão que nunca foi lido, me deu certa tristeza. Uma nostalgia… Cheguei à estante e comecei a folhear e constatar que as maiorias dos livros de coleção ficam mais tempo parados, só enfeitando, do que sendo lidos. Foi quando cheguei à minha coleção pessoal, aos meus livros, alguns que ganhei e trazem dedicatória, carinhos, outros que comprei com sacrifício e fiz dedicatória pra eu mesma, loucuras…

“B. não enrola, fala da Vida Secreta!”

Lembrei de um curta-metragem que assisti há uns anos (amo curta). Lembrava do enredo, uma viúva que após a morte do marido fica aficionada por dedicatórias de amor em livros, e que era com a Zezé Polessa. Daí comecei a procurar no google. E entre um monte de buscas cheguei ao post Dedicatórias no blog Jesus, me chicoteia! Assim que bati o olho, vi que não se tratava do curta em questão, mas me interessei pelo post.

Contava de uma dedicatória escrita a lápis em um exemplar do Decamerão de Bocaccio comprado em um sebo. E olha a sincronicidade, a mesma coleção que eu tenho aqui e que fiz questão de comprar um livro igual para o meu amigo. Gente, o que li me emocionou, arrepiou. Segue abaixo o trecho do post em que ele comenta as dedicatórias, mas vale ler o post todo lá no blog.

O melhor de comprar livros em sebos é encontrar essas dedicatórias totalmente alheias a você. Um dia uma pessoa comprou o livro, escreveu uma dedicatória e o deu de presente para alguém que tinha algum significado. O destinatário não gostou do livro, ou o perdeu, ou lhe roubaram o volume, ou morreu e, passando de mão em mão, o livro foi parar num sebo, com sua dedicatória totalmente despida de sentido e calor. Essa aqui, porém, me deixou um tanto encucado. Transcrevo, com erros e tudo, a primeira parte, escrita a lápis:

Eu gostaria de dizer que a saudade e a ilusão de ser fiel é banal, que vida pertencendo a outra vida é fatal. As emoções do ser humano resume só em pavor e medo e dor. O medo de sair lá fora e gritar que é livre, que é gente, gente de verdade não maltrata outra gente.
Homem de verdade pode andar desolado e indefeso, vida boa é aquela que só os grandes vivem e conhecem.

Eu gostaria de dizer grandes verdades aos jovens que estão carentes de segurança e amor, preocupados com a dificuldade da grana, do futuro. Mas prefiro me calar para que o Pai não venha me sovar salvar. Mas vocês verão um dia que eu jamais menti e nem escondi este grande lamento e massacre maior do que a dor da Morte.

Sinha em 1/09/79 – sábado – 22:20min – SP

Na página seguinte, mais palavras apressadas (mal) escritas com a mesma caligrafia, também a lápis:

Olha, os dias tristes e sombrios me faz senti perdida como no meio de uma floresta.

O sonho bonito, torna solidão. A verdade vira fantasia, não consigo pensar direito. Tudo torna fosco e frio sem você; mas sempre chegam as doces recordações do seu jeito quieto , pacífico e fascinante e faceiro. Seu beijo doce e seu sorriso criança, amor sincero, bandido e medroso. Amor distante, presente só as recordações lembranças.
Mas mesmo assim eu tenho você… Se eu voltar sei que você vai gostar.
Mas…

Olha, lamento…

A volta pra mim virou tristeza, no caminho só sangue existe. A natureza da sua terra virou tristeza, minha solidão. O amor agora é como se fosse pecado. Impossível te amar agora aí, a não ser que tu venhas e me procure, estou aqui vivendo e sofrendo os meus dias de saudade, desalento e paixão recolhida!!!

Otavina em 1/09/79 – sábado – 22:30min – SP

Apenas dez minutos separam os dois textos confusos. “Eu, hein…”, pensei, e folheei o livro para poder cadastrar o número de páginas. Fui surpreendido por outro texto, esse a tinta e com outra caligrafia, escrito por uma pessoa um tanto menos culta que a Sinha/Otavina:

Otavina!

Se gosto de você tenho motivos. Se eu a encontrei um dia foi por acaso. Se fui ao seu encontro foi por querer.
E foi querer amar você que eu sofri mudei tanto!
E foi somente para agradar você que eu sofri.
Se antes eu já gostava de você, não sei…
E se agora eu sofro por amar demais
— não tenho paz…
Se eu sou assim, não tenho culpa
E se eu magoe você peço disculpas
Se eu amo tanto assim, não sei porquê
E não me pergunte mais “se eu gosto de você”!

de sua amiga que muito lhe estima,

Regina
2/06/80

Epa! Otavina e Regina??? Uau! E a Regina conclui na página seguinte, à guisa de P.S.:

— De onde vens?
— Do vale dos sonhos.
— O que trazes?
— Um coração ferido.
— Por que sofres?
— Por um amor perdido.
— Amaste?
— Sim, uma vez na vida.
— O que encontraste?
— Epocrezia. [AI!]
— Por que choras tanto?
— Porque ainda amo.
— Amas?
— Sim
— A quem?
— Você.

Que belezura, não? E agora eu não vou dormir pensando nessa história. Quem foram Otavina e Regina? Por que trocaram mensagens assim, através do Decamerão? Onde Regina estava que não podia mais ser amada por Otavina? Por que a resposta de Regina veio nove meses depois da mensagem de Otavina? Otavina leu essa resposta, ou foi apenas algo que Regina escreveu para guardar? Muitas perguntas.

Particularmente, eu nem sei se a história acima é verdadeira, se a dedicatória realmente existiu, se Otavina e Regina se reencontraram e viveram o seu amor. Quase trinta anos se passaram… A questão é que fiquei tão emocionada com a história (não disse que ando romantiquinha estes dias?) que resolvi partilhar com vocês hoje, Dia dos Namorados. Uma data bem comercial é verdade, mas que deixa mais sensível, quem já o é. O amor pode ser alegre ou triste,  liberado ou proibido, brega (quase sempre), mas seja como for é lindo.

Feliz Dia dos Namorados pra todos!

PS – Encontrei o tal curta que procurava, o nome do filme é Dedicatórias (1997), de Eduardo Vaisman. Só 14 minutos. Atenção especial à cena final, onde o verdadeiro amor, o amor próprio, impera enfim. Clique aqui para assistir. Basta dar dois cliques sobre a imagem para assistir em tela cheia.

3 opiniões sobre “Dedicatórias”

  1. Amei o curta, lindo! Palaras de amor são sempre bem vindas seja em dedicatórias, seja em poesias, seja em textos, fazem a vida ficar mais leve. Como dizia Fernando Pessoa através do seu heterônimo Álavaro de Campos: " Todas as cartas de amor são ridículas, eu também já escrevi cartas de amor igualmente ridículas, mas rídículo mesmo é quem nunca escreveu uma carta de amor".

    Beijos

  2. Ufa! Ufa!!

    Que amor, que paixão, que dor, que sofrimento…

    Que belo, que triste…

    … profundamente humano.

    Trodat

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